terça-feira, 16 de julho de 2013

Artigos -Prossegue na UFRN Semana Bartolomeu Correia de Melo - Nelson Patriota



Desde a última quarta-feira até meados desta semana, toda a obra literária de Bartolomeu Correia de Melo está em exibição na Cooperativa do Campus Universitário da UFRN, dentro das comemorações do segundo ano de falecimento desse escritor, evento que mereceu, por essa razão, a denominação de Semana Bartolomeu Correia de Melo.

Para oficializar a celebração, a professora Verônica Melo, viúva do escritor, autografou o livro “Musa Cafuza”, recém-lançado pela Editora Bagaço, reunindo toda a poesia que Bartola foi produzindo a conta-gotas ao longo de mais de três décadas, em contraponto a sua prosa caudalosa e vibrante que lhe ocupou as horas de ócio de que dispôs numa existência devotada ao magistério na área da química.

Falta agora, para fechar a Coleção Bartolomeu Correia de Melo, o livro “Rosa Verde Amarelou”, enfeixando toda a sua produção na área do conto, vale dizer, “Tempo de Estórias”, “Estórias Quase Cruas” e “Lugar de Estórias”, enriquecido ainda de parte de sua fortuna crítica. Em fase adiantada de realização, a obra deverá ser lançada ainda este ano, o que ensejará certamente nova comemoração entre seus muitos leitores daqui e de outras localidades.

Um público pequeno mas representativo de instituições culturais como a Academia Norte-rio-grandense de Letras, a UBE/RN e o Conselho Estadual de Cultura prestigiou a abertura da Semana Bartolomeu Correia de Melo na manhã da última quarta-feira, na Cooperativa do Campus da UFRN. Por essa razão, constituiu motivo de grande perplexidade por parte dos organizadores da Semana – leia-se a própria Cooperativa Universitária e UBE/RN –, a ausência de professores e alunos dos cursos de Letras, Jornalismo e áreas afins. Até porque foram distribuídos cerca de 600 convites impressos, e outros tantos eletrônicos para as instancias acadêmicas da UFRN. Não custa lembrar ainda que Bartola foi durante toda a sua vida útil professor do Departamento de Química da UFRN e, por alguns poucos anos, presidente da Cooperativa que agora o homenageava.

Sabemos que a rotina de um professor universitário é sobrecarregada por diversas tarefas extraclasse, e encaixar nessa agenda uma tarefa suplementar não deve ser fácil. A total ausência de alunos e professores que têm na literatura uma de suas atividades-alvo é, no entanto, incompreensível. Sobretudo em se tratando de um evento cercado de um grande atrativo, isto é, o lançamento de um livro inédito de um escritor que vem despertando admiração e elogios entre leitores de todo o país.

À academia não interessa o novo? Não o cremos, porque nunca cessa a descoberta de novos autores nas pesquisas acadêmicas. Seria então a cor local que passa ao largo da vida universitária? Talvez que seja esse o caso, e a razão deve ser que seus professores têm dificuldades em se atualizar com a matéria-prima de que tratam, embora o mesmo não aconteça quando se trata da adoção de novas teorias. O que nos faz lembrar um comentário do poeta pernambucano Marcus Accioly: “Os professores de Letras não gostam de literatura, gostam de teorias”.

Ou talvez por que não tenham tempo para ler os autores que discutem, absortos que vivem em intrincadas teorias na busca de explicar a obra literária. Mas isso é só parte do problema. A outra é certa postura “high profile” assumida por alguns no que toca aos autores locais. Pensemos na longa demora que retardou o reconhecimento da importante obra de Luís da Câmara Cascudo, hoje, por louvável ironia, nome de um núcleo de estudos acadêmicos na UFRN.
Enfim, a academia é lenta, como toda instituição complexa. Não achamos que esse seja um defeito insanável. O que sucedeu com Cascudo – sua canonização – poderá suceder a Bartolomeu Correia de Melo, não obstante as diferenças que separam esses dois autores: um ficcionista, o outro historiador. Mas para tanto é indispensável uma mudança de postura por parte daqueles que trabalham com as criações do espírito em âmbito universitário. Do contrário, ficarão sempre defasados quanto ao novo, o que é, convenhamos, extremamente antiacadêmico

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Memórias. Varal das Lembranças: Encontro com Amigos - Pedro Vicente Costa Sobrinho


Eneide, Rosa Matilde, Pedro, Socorro, Lindalva e Natanael Gomes
 
30 de junho, dia de Corpus Christi, recebi em minha casa a visita de um grupo de amigos, dois deles meus colegas dos tempos idos do Colégio Estadual de Jaboatão; um deles, Rosa Matilde, de antes até, Grupo Escolar Padre Américo Novaes, infância em Ribeirão, cidade da região da Mata Sul de Pernambuco, ambos alunos das inesquecíveis professoras do ensino primário: Teresinha e Cleonice.  Natanael, que veio acompanhado da esposa Eneide e da irmã  Lindalva, além de colega de escola, trabalhou na firma comercial em Jaboatão: Café Leão do Norte, na qual também eu fui balconista e ele gerente de loja. Natanael foi colega de sala de aula do poeta Alberto da Cunha Melo.

Artigos - Diógenes abre o seu Livro das Revelações – Nelson Patriota




 
O que um antigo questionário popularizado pelo escritor Marcel Proust, no começo do século passado, em Paris, tem a dizer aos tempos de hoje? Para o poeta Diógenes da Cunha Lima, se ampliado e adaptado, pode revelar as matrizes do afeto e até mesmo o pensamento vivo que está por trás das obras dos escritores.

Com esse propósito, ele aplicou a um grupo de poetas, pesquisadores, ensaístas e ficcionistas, um conjunto de indagações cobrindo assuntos pessoais, filosóficos, religiosos e mundanos, na busca de conhecer mais intimamente cada um dos entrevistados. São norte-rio-grandenses como Ana Maria Cascudo, Sônia Fernandes, Paulo de Tarso Correia de Melo, Nilson Patriota, Pedro Vicente Costa Sobrinho, Manoel Onofre Jr., Sílvio Caldas, Nei Leandro de Castro, Murilo Melo Filho, Kerubino Procópio, Ivan Lira de Carvalho;  pernambucanos como Edson Nery da Fonseca e José Paulo Cavalcanti Filho, e ainda de outros estados, como Ivo Barroso, Ático Vilas-Boas, Constância Lima Duarte, Marco Lucchesi, totalizando 31 nomes.

Nada menos do que 72 questões foram propostas aos entrevistados, abordando coisas como gostos, preferências, fantasias, convicções, intuições e aspirações. Um campo vasto, portanto, para indagações. Umas fáceis de responder, outras, embaraçosas. No primeiro caso, um vasto leque de perguntas que indagam sobre a cor favorita, a comida favorita, a flor preferida, a árvore admirável, um filme, três palavras bonitas etc. No segundo caso, que coincide com a progressão do questionário, o entrevistado tem de dar tratos à bola para se desembaraçar de perguntas como: “solidão é conquista ou derrota?”, “que outro dom Deus poderia de ter dado a você?”, “Quem você gostaria de ser sido?”, “Como você sonha a felicidade?”, entre outras.

Ainda assim, a grande maioria dos entrevistados encontrou respostas e argumentos “razoáveis”. E até de forma espirituosa, como responde Ivo Barroso sobre “um ditado popular”: “Para bom entendedor, pingo é letra”, ou Antônio da Cunha Pessoa sobre o tema “um aforismo”: “Viva o paraíso, mas o mais tarde possível”. Um humor sutil embasa a resposta de Kerubino  Procópio à questão “qualidade superior em uma mulher”. Sua resposta: “ser do sexo oposto”.

Alguns temas, porém, servem para trazer à luz divergências irreconciliáveis entre os entrevistados. É o que acontece com a pergunta: “O computador mudou sua vida?”.  Um é taxativo: “Não tenho computador” (Manoel Onofre Jr.). Já a escritora Sônia Fernandes  Ferreira generaliza: “muda a vida do mundo”, enquanto Marco Lucchesi contemporiza: “muda. Não muda”.

Outros entrevistados imprimem um viés filosófico às suas respostas, como Ivo Barroso descrevendo sua visão de Deus: “O ser humano levado à perfeição”, ou Marco Lucchesi: “só o excesso merece perdão” (sobre “daria indulgência a que falhas humanas?”); há os niilistas, como o faz Antônio da Cunha Pessoa sobre a fé: “Um ato de vontade que não mais me seduz”. Nem falta a resposta paradoxal, como a de Pedro Vicente Costa Sobrinho sobre “o que mais importa a você como profissional?”: “Evitar ser um profissional”.

Afora seu diletantismo naïf, o jogo de perguntas e respostas que secunda o livro deixa entrever um pouco do espírito de nossa época, marcada pelo predomínio do dissenso acerca de quase tudo que consideramos importante na vida.

A íntegra desse trabalho está enfeixada n “O Livro das Revelações” (que, não obstante o eco bíblico, nada tem de apocalíptico), cuja coordenação é do escritor Diógenes da Cunha Lima. Seu lançamento aconteceu na segunda-feira (1º julho), às 18h, na Academia Norte-rio-grandense de Letras. Pena que o próprio autor, poeta e frasista consabido, não tenha contribuído com suas próprias respostas às perguntas que fez aos amigos de seleção. Teria sido uma contribuição sugestiva, decerto.

domingo, 2 de junho de 2013

Gastronomia - Notícias sobre a Culinária da fronteira: Pando e Beni (Bolívia) – Miguel Angel Ortiz


Saltenha

Na minha pesquisa sobre Culinária Acreana, procurei verificar a influência que a culinária da fronteira, principalmente boliviana, havia tido sobre a alimentação no Acre. Certamente encontrei alguma coisa, mas longe de ter um peso que fosse levado em conta maior. Com exceção das empanadas como a Saltenha etc.,  galinha picante, masaco, o chipillo (banana comprida fatiadinhas e fritas), pouca coisa foi agregada ou assimilada. O grosso dessa cozinha teve origem na Amazônia e no Nordeste. A carta de meu Miguel Angel Ortiz é muito importante para esclarecer essas questões, por isso a publico na íntegra; além disso, ela fornece variada e rica informação a respeito da culinária da Bolívia, sobretudo sobre a culinária  que é  praticada na fronteira com a Amazônia brasileira, principalmente nos Departamentos do Beni e Pando(Pedro Vicente).

 

Meu caro Doutor:

Com as desculpas pela demora, ai vão algumas informações sobre sua consulta. Informo-lhe, ainda que o Barbosa está por aqui. Veio a deixar o seu filho Charles Frederik que conseguiu entrar no quadro da UFAC como Diagramador. A Gracinha está com ele. Barbosa volta a Rondônia na outra semana.

Locoto ou RECOTO –

Capsicum pubescens é uma pimenta com frutos de tamanho médio, comum no Peru, Bolívia, Chile, Argentina e Equador. Conforme as regiões é localmente designada por rocoto (em quíchua) ou locoto (em aimará).

Alguns pratos típicos:

Locro de gallina, preparado en base a gallina cocida, arroz y yuca.

Locro carretero, preparado en base a charque, chivé, arroz y yuca.

Patasca de Cerdo com graos de milho branco.

Majao con huevo y plátano frito.

Tujuré – Milho branco, verde cozido até quase esbagaçar e servido em prato com leite frio.

Yuca é mandioca ou macaxeira – tubérculo – raiz cuja variedade doce é utilizada desde épocas primitivas. Dela se faz a farinha (chivé), “masaco” – tipo de torta que pode ser cozida - moída e misturada com charque ou queijo, ou no forno - quando a gente a chama de “chima”(tchima).

Com a yuca também se faz bebida que fermenta e embebeda. A yuca brava, igual que em Belém, os índios a utilizam para algumas comidas e bebidas que devem ser fervidas por muito tempo para eliminar o ácido venenoso que tem. São os mesmos tipos que existem no Brasil.

Tortilla, dentre outras coisas, é um pão folheado que pode ser recheado com queixo ou coberto com açúcar. Parecido com brioches. Também pode ser feito tortilla com ovos e outros componentes fritos ou no forno. Ou seja, tortilla é um nome que pode englobar várias espécies de alimentos.

Salteña é uma empada de forno com RECHEIO PRÉ-COZIDO que pode ser de carne ou de frango, misturado com batata, ovo cozido, azeitona preta e condimentos como pimenta do reino e cominho e que é preparado em separado e embebido em gelatina para depois ser congelado. A massa é feita no dia seguinte, misturando farinha de trigo, com pingo de sal e fermento. Esticada e cortada em rodelas, recebe o recheio congelado, sendo a seguir fechada. O recheio pré-cozido e congelado derrete e fica pronto para consumo no tempo em que a massa externa doura. Essa massa, antes de ir ao forno, recebe pinceladas de ovo. Seu nome deriva de Salta (Argentina), local de origem de Manuela Gorriti, que ao emigrar a Tarija (Bolívia) no século XIX, para manter-se passou a produzi-las. Pode ser ligeiramente adocicada ou apimentada.


 Chuño, criação dos quéchuas e aimarás (moradores nos Andes), é resultante da desidratação da batata ou de outros tubérculos que existem naquela região. Essa desidratação é feita por congelamento da água contida nas batatas e a evaporação dessa água sem passar pelo estado líquido. Esse método preserva a batata com todas suas características. O processo, por volta de 1950, foi denominado liofilização e hoje é muito utilizado. Na região dos Andes é possível de ser feito diretamente na natureza, graças ao frio extremo, à baixa pressão atmosférica e ao forte calor do sol que acontece também por conta da baixa pressão e que queima mesmo. O chuño pode ser guardado por muito tempo (anos). A tunta é o chuño mantido submerso por 10 a 15 dias em rios de água corrente que existem no altiplano e depois descascado. É melhor não aprofundar muito nos mecanismos que são utilizados para descascar porque o pessoal pode ficar sem vontade de utilizá-lo como alimento.

Chunho - batata boliviana desidratada

 

Sopa de Maní (Amendoim)


Ingredientes para 6 personas

1/2 Kg. de carne
1 cebolla
1 nabo entero
4 cucharadas de maní tostado y molido
1 rama de perejil
3 papas cortadas en ocho partes
1/2 taza de arroz
sal

Preparación: Ponga a cocinar en una olla con agua y sal durante 1 hora la carne, el nabo, el perejil y la cebolla picada. Añada el maní, el arroz y después de 5 minutos las papas, deje hervir y sirva.

Calorías por ración 300.

Lagua de Choclo (Espiga de milho)

Ingredientes para 6 personas

1/2 Kg. de carne
1 cebolla entera
1 nabo
4 papas cortadas en ocho
6 choclos grandes molidos (espigas de milho, debulhados e moídos)
Sal


Preparación: Cocine en una olla con agua y sal la carne , la cebolla y el nabo durante 1 hora; luego, cuele el caldo y añada las papas. Cuando estén listas, agregue poco a poco el choclo molido, añada agua si están muy espaso, y deje hervir 15 minutods removiendo hasta que espese; deje quedar como una crema.
Calorías por ración: 784

CHIPILO

Banana comprida verde, cortada em fatias finas e fritadas em óleo bem quente.

CHICHA

Bebida feita com milho moído ou ralado, depois fervido por bastante tempo e, por fim coado.

Quando consumido logo, é refresco.

Se guardado por algum tempo, fermenta e se transforma em álcool, normalmente fraco, mas que pode embebedar.

Há alguns que colocam outros componentes para aumentar a sua fermentação, como por exemplo, saliva.

A chicha colha, segundo a lenda, fermenta com um saquinho de merda dentro dos recipientes.

Certo é que tem culturas colhas que mastigam o milho cru e depois o cospem no recipiente onde é fermentado. Algumas chichas são fervidas, outras não. As fervidas normalmente não são alcoólicas.

A chicha camba (refresco) é só fervida e depois refrigerada.

Um outro tipo de chicha camba é feito com grãos de milho inteiros o qual é cozido e servido sem coar e nem desmanchar. Apenas fica inchado e macio. A isso a gente chama “Somó” e basta adoçar que está pronto.

PARRILLADA

Parrilhada, como você conheceu em Cobija, servida num restaurante de um argentino, é chamada de “parrillada mixta” e consiste em pedaços de carnes nobres (filé, picanha, bisteca), junto com pedaços de rins, culhão, coração, ubere e tripa, ademais de lingüiça. Essas carnes são servidas em fogareiros com braças acessas para manter tudo aquecido.

GALINHA PICANTE

INGREDIENTES (8 PERSONAS)
2 pollos
2 kg ají colorado molido
2 kg papas
1 kg chuño mediano, remojado
½ kg arroz
½ kg cebollas
2 pimentones morrones
1 cabeza ajo
½ kg arvejas
1 amarro perejil
1 litro aceite
Huevos o maní para el chuño
Sal a gusto

PREPARACIÓN:

Rallar la cebolla y el pimentón. Moler el ajo y picar el perejil. Poner todo a cocer en una olla hasta que salga toda el agua. Aparte cocer el ají colorado hasta que se seque y poner el aceite para freírlo. Una vez frito, agregar los condimentos previamente cocinados para preparar el jugo.

Poner a cocer en una olla los pollos despresados. Aparte cocinar las papas y las arvejas. Preparar el chuño remojado y cocido con los huevos o el maní molido. Aparte, en una cacerola, verter un chorro de aceite para granear el arroz.

Servir en plato raso. Primero el arroz y el chuño. Luego las presas de pollo y las papas que están ya preparadas en el jugo. Rociar con perejil picado.

“CUÑAPÉ”, nada mais é do que o “pão de queijo” mole. Esse pão de queijo pode ser também torrado no forno que fica uma delícia.

“PANDEARROZ" ou pão de arroz. Tipo de alimento feito em forno, a partir de arroz quebrado e moído, porém, sem ser reduzido a farinha, o qual é misturado com leite, queijo coalho e temperos até formar uma pasta. Essa pasta, em porções, é colocada em folhas de bananeira e levados ao forno para cozinhar até dourar. Existe uma versão parecida com uma empada e com bastante queijo no seu interior.

TAMAL (PAMONHA)

Feitos com milho verde ralado, misturado com queijo ou açúcar e acondicionado nas palhas do milho. Pode ser cozido em água ou feitos em forno.

 

 

Nota: Miguel Angel Ortiz, meu grande amigo boliviano. Afinidades reveladas desde os primeiros contatos na loja revendedora de carros Acrevelimda, em Rio Branco. Pouco tempo depois viemos  juntos trabalhar no SESC; também juntos saímos do SESC. Através dele tornei-me amigo de todos os seus familiares diretos e de sua esposa e família. Somos compadres, ele e esposa são padrinhos de minha filha Mariana. Miguel fez-me conhecer movimentos e lideranças que se opunham aos ditadores bolivianos: Banzer, Meza etc., e ainda muitos amigos que também se tornaram meus amigos. Viajamos muito  ao Departamento de Pando, e por ele fui levado a conhecer alimentos e pratos que eram feitos na fronteira. Restaurantes, botecos, padarias e mercado público de Cobija foram visitados com regularidade e exaustão. Os pães, batatas: chunho, tunta papalisa etc., chicha, parrilhada, pimentas, empanadas eram os alimentos que mais me atraiam, afora as boas cervejas que ali chegavam vindas de La Paz.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Artigos – Aula de Aritmética - Armando Nogueira

 
Busto de Juvenal Antunes - Posto defronte ao prédio do antigo Hotel Madrid, onde o poeta se hospedava - Rio Branco - Acre

Férias. Quem nunca tirou não sabe como é bom. Quinze dias de contemplação, manso sinônimo de preguiça. Conheci um poeta chamado Juvenal Antunes. Minha conterrânea Glória Perez sabe de quem estou falando. O poeta Thiago de Mello, também sabe. Juvenal passava o dia a recitar versos, quase sempre, cantando a beleza de Laura, a musa inspiradora de sua aventura poética. A voz esganiçada ressoava pelos barrancos do rio Acre: "... Perdoa, Laura, o meu atrevimento/ Lê esta carta, rasga e solta ao vento!"

Sem a lira de Juvenal Antunes, eu não teria saco pra enfrentar a cara de fuinha do professor Ernani. A aula de aritmética do professor Ernani era o grande suplício de minhas manhãs. Menos mal que minha vizinha de carteira era a morena Isabel, em cujos cabelos longos, lisos e lustrosos eu me refugiava da chatice elevada ao quadrado do professor Ernani. Que Deus o tenha!

Nas curtas férias que acabo de gozar, evitei sempre conversas de esporte. Não dava nem pra ouvir falar de futebol. Estava cheio de ver tanta bola no ano de 2001. Cheguei a pensar em sair de bigode postiço e peruca. É natural: neguinho te vê, se lembra da televisão e quer logo saber se o Juninho vai dar certo no Flamengo.

Quando pousei em Parati, outro dia, o guarda-campo me perguntou do Felipão. Respondi que não era quem ele estava pensando. Somos muito parecidos. Há até quem diga que somos gêmeos. Na verdade, nem nos conhecemos. Disse que me chamo Almir, que sou botânico de profissão. E fui logo engrenando uma segunda: meu ramo é outro. Cuido de flores. Vendo mudas de buganvília, exporto bromélias pra Europa e orquídeas pros Estados Unidos. O mais engraçado, digo eu, é que somos iguais fisionomicamente, mas muito diferentes em questão de gosto: eu não ligo a mínima pra futebol.

Na curtição da minha honrada vagabundagem, volta e meia, eu me lembrava do poeta boêmio que escandalizava a cidade de Rio Branco, com seu robe-de-chambre de florões e seus pileques de gin com vermute, a declamar poemas na porta do hotel Madrid. Juvenal Antunes era Promotor Público, mas nunca aparecia no trabalho. Tinha tanto horror ao Fórum quanto eu ao colégio. Acabamos tendo outra afinidade: eu também fiquei apaixonado pela doce Laura que nunca fiquei sabendo quem fosse. Com uma pequena diferença de sorte: o que seria o meu primeiro ardor amoroso, puro devaneio, seria o derradeiro de Juvenal Antunes. Ele morreria pouco tempo depois, de melancolia.

Em Juvenal Antunes, descobri a cadência musical de um verso decassílabo: "Em tudo, me dás vida e me engrandeces/ E te vejo mais linda a cada passo." Com ele, aprendi, ainda, a preciosa lição de que, seja qual for o destino à tua frente, uma aula de aritmética, um caso de amor mal parado, haverá, sempre, um sopro de poesia pra apaziguar teu coração.

Nesta primeira crônica de volta ao trabalho, repito, em louvor das férias findas, os versos que Juvenal Antunes recitava, como se fosse pra mim, quando eu, desconsolado, ia pra mais uma aula de aritmética: "Bendita sejas tu, Preguiça amada/ E não consintas que eu me ocupe em nada.”

 

Publicado originalmente no Blog de Altino Machado.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Artigos - Luiz Damasceno em 50 versões e uma entrevista – Nelson Patriota




Alguém já disse que é difícil em Natal encontrar quem não tenha pelo menos um livro sugerido por Luiz Damasceno, referindo-se ao tempo em que ele atuou por trás dos balcões das livrarias da cidade. Na verdade, ninguém assumiu de forma tão consequente e passional o papel de divulgador do livro e da leitura, em nosso meio, como esse livreiro cuja trajetória começou nos anos 60 na Livraria Universitária de Walter Pereira. Nos poucos anos que ali passou, Luiz se mostrou um vendedor tão diferenciado de seus pares que logo se tornou uma referência indispensável. Desde essa época, ele se destacou por não só sugerir livros, mas por conhecer os gostos e preferências literárias de seus amigos e clientes.

Era tão forte a relação entre Luiz Damasceno e os livros que quando foi criada a Cooperativa Universitária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, naturalmente se cogitou em seu nome para viabilizar aquela iniciativa, graças ao seu conhecimento amplo e criterioso da área.

Aposentado há poucos anos da Cooperativa Universitária e padecendo de um mal incapacitante, Luiz Damasceno ainda hoje é uma referência incontornável no campo do livro em Natal. “Ninguém conhecia os livros tão bem como Luiz”, se ouve dizer com frequência, sempre que se toque nesse assunto.

Personagem consagrado pelo seu próprio esforço, espécie de “self-made man” do mundo do livro, Luiz Damasceno ganha agora uma homenagem justa pelo trabalho que desenvolveu durante toda a sua vida útil. Trata-se do livro “Viva Luiz Damasceno”, editado pela Editora da UFRN em parceria com a Cooperativa Cultural da UFRN e organizado pelo professor Marcos Silva. Essa obra, que será lançada com pompa e circunstância no dia 10 próximo, no auditório do Núcleo de Arte e Cultura da UFRN - NAC (Campus Universitário da UFRN), às 18 horas, apresenta pelo menos 50 visões e versões de Luiz Damasceno, num esforço de interpretação que mobilizou escritores, professores, jornalistas, amigos e admiradores do livreiro. Quanto aos textos assinados por Bené Chaves, Francisco Sobreira e Nássaro Nasser, por não apresentarem correlação direta com Luiz Damasceno, parecem fora de lugar.

O texto do programa “Memória Viva” enfocando a vida de Luiz Damasceno, e que foi ao ar na TV Universitária da UFRN no dia no dia 1º de agosto de 2005, também integra o livro, e serve assim como uma espécie de réplica às 50 versões do personagem. De fato, na entrevista, conduzida pelo escritor e apresentador Tarcísio Gurgel, e enriquecida com as presenças do escritor Pedro Vicente Costa Sobrinho e do professor Antonio Capistrano, Luiz Damasceno filtra, “a posteriori”, muitas informações que circulam a seu respeito nas páginas do livro. Por outro lado, o entrevistado corrobora outras tantas informações de cunho pessoal, enquanto discorre sobre seus trabalhos, sua militância no Partido Comunista, suas leituras e suas relações com a clientela de amigos e conhecidos que sempre fez pelas livrarias por onde andou, especialmente na Universitária, na época do livreiro Walter Pereira, e na Cooperativa da UFRN.

É evidente que alguém que, como Luiz Damasceno, fez da controvérsia um estilo de vida, coloca-se naturalmente à margem de qualquer consenso de seus intérpretes, visto que “cada cabeça, uma sentença”. Aí, talvez, resida o mérito principal desse “Viva Luiz Damasceno”, propondo, a cada capítulo, um aspecto, um chiste, um cacoete, uma anedota, que fez do livreiro uma lenda num setor conhecido mais pelo pragmatismo do que pela verve e o improviso de seus agentes.

Mas é bem possível que, por trás do livreiro polemista e sempre inconformado, se encontre sua máxima virtude, na medida em que nos adverte contra o consenso fácil que seduz à primeira vista, mas cuja outra face é o logro e a decepção. Sem falar que sua ética miúda, mantida a toque de ironias ditas e subentendidas, muitas vezes acertou o alvo.

DESTAQUE:

“Personagem consagrado pelo seu próprio esforço, espécie de ‘self-made man’ do mundo do livro, Luiz Damasceno ganha agora uma homenagem justa pelo trabalho que desenvolveu durante toda a sua vida útil no livro ‘Viva Luiz Damasceno’

Artigos - A poesia para a qual nem morrer é remédio - Nelson Patriota




Seu conterrâneo Ascendino Leite já havia deparado com o dilema fatal: poesia ou morte. Foi com este dístico que ele nomeou a reunião de sua poesia, velha já de uma dúzia de anos, no entanto, tão atual! Talvez que alguns poemas padeçam da natureza mais íntima do vinho: à medida que avançam no tempo, incorporam certos elementos rejuvenescentes, e se tornam melhores.

Ao reunir sua poesia, a exemplo de Ascendino – seu antecessor na Academia Paraibana de Letras –, o poeta-crítico Hildeberto Barbosa Filho se impôs dilema semelhante ao que levou o autor do mais famoso jornal literário de sua época a proferir o brado radical, cuja essência se impunha de imediato: antes perecer a viver sem poesia. Mais cético, Hildeberto evitou as armadilhas do impasse ascendiniano e decretou, como um novo Cioran: “Nem morrer é remédio”.

É sob o ônus existencial desse presságio que HBF rematou vinte e quatro anos de poesia pública, mas cuja gênese deve emplacar no mínimo outros tantos anos, pois nenhum poema nasce de pronto habitualmente. Antes, precisa ser desbastado de excessos e lacunas até se tornar apresentável.

Mas é inútil buscar nas 433 páginas de “Nem morrer é remédio” (Ideia, 2012) um poema que porte tal título. A expressão é muito mais a síntese do longo labor poético empreendido por HBF, durante horas incontáveis de dias inumeráveis como as tentações da musa versejadora.

Tudo começou com “A geometria da paixão”, desencadeando um fluxo intermitente de outros poemas, outros livros, outros presságios do poema que iria finalmente saciar a sua sede de poesia. Em HBF, porém, essa sede parece não ter limites. Mesmo admitindo que seus interesses se resumam essencialmente a três coisas, como reza o poema “Declaração” (“À sombra do soneto e outros poemas”): “Poucas coisas me interessam: / um amigo que sofre / uma mulher ferida / um livro raro [...]”.

Em “Desolado lobo”, páginas atrás, em colóquio com seu alter ego, HBF adota outras dicções. Em “Hábito” condena os céticos – “tudo está sempre a nascer”; em “Morte”, descreve-a como “breve, vasta e vã”; em “Verso” recolhe um adjetivo para a angústia: “apátrida”: “pobre de teu verso que por ti / fazer nada pode”.

O passo seguinte foi a reunião dessa vasta obra poética. E mais que de pronto, ela se descola do registro dos bens naturais do poeta para buscar suas infinitas possibilidades de leitura, destino irrevogável dos livros. Pensemos no veraz Catulo, o latino, que, no entanto, augurou profeticamente ao seu “Livro de Catulo” (que ele designou de libelli = livrinho): “que viva, ó deusa virgem, mais de um século!”.

Se aos olhos de algum conterrâneo pareceu por demais pretensioso o autor do “Livro de Catulo”, hoje consideramos modesto seu vaticínio, quando comparado ao requinte de sua poesia, que não cessa de seduzir e encantar. No que toca a Catulo, portanto, morrer não foi remédio. Sua poesia estaria aí, para desmenti-lo, caso a tivesse formulado nesses termos, o que não o fez, como já vimos.

Dois séculos passados, os poetas continuam a viver e a escrever, alternadamente, sem que cheguem a um acordo sobre o tanto que lhes cabe viver e o outro tanto, escrever. Viver para escrever? Sabe-se que chegar a esse extremo equivale a renunciar à vida. Ora, quem porventura assim agisse, ainda disporia da matéria própria à escrita? Seria o caso de reverter a equação, antepondo o escrever ao viver? Mas sobre o que escreveria quem se furtasse a viver? De que matéria consistiria tal escrita? Insistir nesse círculo vicioso não leva, portanto, a qualquer porto seguro. Impõe-se, então, o bordão hildebertiano: nem morrer é remédio!

 

DESTAQUE:

“É sob o ônus existencial desse presságio que HBF rematou vinte e quatro anos de poesia pública, mas cuja gênese deve emplacar no mínimo outros tantos anos, pois nenhum poema nasce de pronto habitualmente”.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Memórias. Varal das Lembranças: O que não me esqueci dos primeiros passos como editor aprendiz (1)



Tipografia: orígens

Ribeirão, 1957. Eu estudava na quarta séria do curso primário no Grupo Escolar Padre Américo Novais. A escola ficava na Rua Bernardo Vieira, no Bairro Novo; bem próximo a ela estavam a Serraria e movelaria União, que meu pai,  então, gerenciava, o Cine Bairro Novo e a Tipografia Brasil. Eu frequentei muito as oficinas da serraria por isso eu fiquei com certa familiaridade com as máquinas: serra de fita, plaina desempenadeira, serra circular, furadeira, tupia, coladeira, tornos de bancada, e suas ferramentas manuais: arco de pua, serrotes, martelos, grosas, formões, chaves de fenda entre  outras. Meu pai havia me ensinado quase todos os nomes dos apetrechos indispensáveis que compunham a maquinaria e caixa de ferramentas indispensáveis a um profissional marceneiro. Por mera curiosidade eu lhe perguntava vez por outra que tipo de madeira ele estava usando em móveis que estava a confeccionar, e assim também me familiarizei com madeiras como imbuia, pinho, cedro, sucupira, louro etc., inclusive o louro cagão pelo seu fedor que exalava de merda. Nunca demonstrei maior interesse pela arte da marcenaria ou carpintaria e seria inútil que meu pai tentasse me induzir a sua aprendizagem, o que nunca veio a acontecer, pois ele não me queria operário e sim que eu me dedicasse a estudar para que não viesse a ser mais um escravo da bancada de madeira.  A Tipografia Brasil que ficava do outro lado da rua logo me atraiu.  No intervalo do recreio escolar eu me deslocava até o galpão da tipografia e ficava a observar pelos janelões o trabalho dos tipógrafos com suas máquinas impressoras, guilhotina, prensa,  facão de corte, grampeador, furadeira e os cavaletes e mesas de composição para tipos móveis; o setor de acabamento só tinha mulheres, que intercalavam e confeccionavam blocos e talões. Dois dos meus vizinhos e amigos eram operários gráficos, Zezinha e Miltom. Desde aí, eu comecei a alimentar o desejo de aprender a profissão de tipógrafo. O meu pai a isso também se opunha, pois o seu projeto com relação ao meu futuro era outro e quanto a isso não faria nenhuma concessão. Ele alimentava a esperança de que eu viesse a fazer um curso superior, o sonho que cultivava era ter um doutor em  nossa família.

Por mediação de Miltom eu visitei as oficinas e pude melhor apreciar o processo de trabalho. O que mais me atraia era o trabalho dos operários que ordenavam letrinhas para compor o que chamavam de chapas para impressão.  Eu ficava observando como de rápido eles catavam das gavetas   dos armário as letrinhas que ordenavam  no componedor e depois levavam para bolandeira para completar o texto que haviam iniciado. Era impressionante aquela alquimia, pois dali saia o texto que aparecia impresso no papel. Vinha-me a mente de logo os livros escolares, de literatura, ciência, revistas, jornais e histórias de quadrinhos que lera na escola, na biblioteca de tia Neném ou comprava nas bancas de revistas. Tudo era fruto daquela oficina de sonhos. As artes gráficas desde então ficaram e não saíram de minha vida. Anos depois, quando fazia o primeiro ano do curso comercial básico, eu vim a conhecer Ernani de Araújo, gerente da Tipografia Brasil, meu professor de matemática, disciplina na qual eu era o melhor aluno da turma. Nunca conversei com ele sobre meu sonho de me tornar tipógrafo, até porque,  nesse tempo, eu desviara  o foco de interesse na direção da música. Isso certamente por influência, competição e mesmo um pouco de inveja  pelo que então estava a fazer meu querido amigo e quase irmão Kosinski, apelido Quinho, pois ele passara a frequentar o curso de música que era ministrado pelo maestro Miro de Oliveira, regente da Banda de Música 11 de Setembro, que pertencia ao município. Quinho foi minha maior referência de amizade e admiração durante a infância.

Caixeta com Tipos Móveis e Componedor

Jaboatão, 1962.   Comecei me envolver com o jornal alternativo Dia Virá, e  desde então eu passei a acompanhar Alberto Cunha Melo nas suas idas até a pequena oficina gráfica em que o jornal era composto e impresso. A composição era feita manualmente em tipos móveis, e a impressão do jornal era feita numa  máquina impressora elétrica manual com tintagem de platina. O nosso trabalho era revisar as provas dos textos entregues para composição, e dias depois rever as provas de páginas inteiras para verificar se as emendas haviam sido feitas, se os títulos postos nos textos estavam corretos e as matérias estavam no lugar que fora definido no esboço de diagrama entregue a gráfica.  Por ser muito pequeno o espaço onde estava instalada a tipografia, o gerente, seu Cláudio, nos entregava as provas dos textos para revisar fora de lá.  Geralmente  a revisão era feita na casa de Alberto ou na maternidade Maria Rita Barradas, nos dias em que Zé Luis se encontrava no plantão médico. O contato com essa pequena tipografia voltou a despertar  meu interesse pela arte gráfica, mas não tão importante que me fizesse retomar a vontade inicial de aprender esse ofício.

Recife, 1963. Ao me tornar profissional do Partido Comunista Brasileiro, quinzenalmente todas as sextas-feiras eu me dirigia à sede do PCB, no edifício Vieira da Cunha, Rua Floriano Peixoto, para conversar e relatar pra David Capistrano, Secretário do Comitê Estadual e assistente do CM de Jaboatão, a respeito do trabalho que eu havia feito para cumprir a tarefa que me havia sido dada pelo CE. A tarefa que me destinou a  direção estadual foi reorganizar as Organizações de Base (OBs) do PCB, na cidade e principalmente no campo, com vistas a realização da Conferência Municipal do PCB em Jaboatão. Não era uma tarefa nada fácil, pois o companheiro Elias,  responsável pela assistência as bases do partido nas áreas rurais dos municípios de Jaboatão e Moreno, havia aderido as Ligas Camponesas e se deslocado para o interior de Goiás para participar de treinamento com vistas a organização da luta armada guerrilheira sob a liderança de Francisco Julião. O pior é que Elias levara com ele todas as informações relacionadas com o trabalho que há anos fazia para o PCB. O trabalho que Elias desenvolvia no campo estava ligado diretamente ao CE, e, portanto, os companheiros do partido em Jaboatão não tinham o mínimo controle de suas atividades junto aos trabalhadores rurais. As ligações que o CE do PCB conseguiu refazer com companheiros do campo com militância no sindicato serviu de base para retomada das ações de reorganização das antigas bases rurais. Para que esse trabalho lentamente fosse sendo reconstruído, eu contei com a colaboração de Cirilo, um sitiante  que trabalhava em terras da usina Jaboatão. A sábia orientação que recebia de David Capistrano nesses encontros semanais era fundamental, e eu procurava executar a tarefa da melhor maneira possível.


Linotipo com operador
A redação do jornal “A Hora”, órgão de imprensa do PCB, funcionava no mesmo andar em que estava sediado o Comitê Estadual. Vez por outra, David convidava-me a acompanhá-lo para que continuássemos a conversa num velho Jipe durante o percurso da Rua Floriano Peixoto à Praça Sérgio Loreto, onde ficava a as oficinas gráficas do jornal. Na gráfica, geralmente David apanhava encomendas impressas para entregar à fregueses instalados nas imediações, principalmente os que ficavam no Bairro de Recife. Para o itinerário de entregas quase sempre eu o acompanhava, pois a conversa muitas vezes era longa, e somente terminava quando a gente retornava ao ponto de partida: a redação do jornal e sede do PCB.  Nessas rápidas visitas, eu passei a conhecer os operários e as máquinas que compunham e imprimiam o jornal, e fiquei sobretudo impressionado com o funcionamento da linotipo, que de modo mágico engolia  chumbo derretido numa caldeira e cuspia linhas de texto fundidas em pequenas barrinhas do metal. Era uma máquina bonita e milagrosa.

Ainda em 1963, eu conheci em Jaboatão o tipografo Fernando, que trabalhava numa empresa gráfica de Recife, salvo engano, como compositor manual, mais conhecido nas tipografias como chapista. Fernando era tipógrafo de formação em escola: Liceu de Artes de Recife, SENAI ou Escola Técnica Federal, por isso conhecia muito bem seu ofício; além disso, era um bom leitor fazendo jus à tradição histórica dos profissionais da área e, apesar de jovem, já havia trabalhado em muitas empresas gráficas de Pernambuco. Através de meu amigo Fernando eu tomei conhecimento de Josué de Castro, e ainda por sua insistência eu comecei a ler a obra do grande estudioso do problema da fome no Brasil e no mundo.     Inicialmente, emprestou-me seu exemplar de O livro negro da fome, comprometendo-se a me ceder outro livro intitulado Geografia da fome. Mesmo sendo um pobre, a minha pobreza contudo estava longe de ser comparada com a miséria daquelas populações que Josué colocara em suas páginas. O livro causou-me profunda impressão e revolta. Através de Fernando soube ainda que Josué era deputado federal, e que havia proferido recentemente conferência no Teatro Santa Isabel, dentro das atividades preparatórias para o Congresso Internacional de Solidariedade a Cuba, pois a ilha revolucionária estava naquele momento ameaçada de nova invasão por tropas norte-americanas. Josué, segundo Fernando, havia cativado o público que havia lotado o Teatro Santa Isabel, com um discurso de mais de três horas sob o tema: Cuba não está só. Fernando era um intelectual da classe operária, um ativista político e sindical; por ele fui levado à sede do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Gráficas de Pernambuco, que estava instalada à época na Rua Direita, e apresentado ao seu histórico dirigente e líder Edvaldo Ratis. Com Fernando aprendi muito sobre política e sindicato e, sobretudo, sobre o funcionamento de uma oficina gráfica.

Como fecho dessas minhas anotações sobre meus contatos iniciais com as artes gráficas, eu quero registrar o papel que desempenhou o professor Pedrinho, orientador da disciplina Caligrafia, assunto que estudei no segundo ano do curso Comercial Básico da Escola Técnica de Comércio de Ribeirão. Durante todo um semestre, Pedrinho, munido com três grossos cadernos de anotações, discorria a respeito da história e evolução da escrita no ocidente.  Com ele aprendi sobre os principais suportes nos quais através do tempo repousaram a arte da escrita: tabletes de argila, papiro, pergaminho, trapos e modernamente o papel. Os sistemas de escrita dos povos antigos: hieroglífica, pictográfica, cuneiforme etc., até a adoção do alfabeto. O papel dos copistas na evolução da escrita e na divulgação das artes e ciências. A invenção dos tipos móveis por Gutenberg e a grande revolução que causou nas comunicações. Através de sua disciplina eu tomei conhecimento dos grandes desenhistas de tipos e impressores:  Luca Pacioli, Aldus Manutius, Bodoni, Griffo, Robert Granjon, Nicholas Jenson, William Caslon, Didot, entre outros.



Pedrinho era contador muito conceituado na cidade, dono de escritório de contabilidade instalado na Praça Estácio Coimbra, Praça do Jacaré como a ela se referia o poeta Marcus Accioly, e possuidor de uma bela forma de escrita, um calígráfo.  Os livros contábeis eram à época quase todos escriturados à mão, e exigiam uma boa escritura: legível, bonita e harmoniosa, e para os alunos que pretendiam tornarem-se profissionais de escritório ou contadores valia a pena prestar bem atenção as suas interessantíssimas aulas. Pedrinho sempre dava aulas todo paramentado, terno e gravata, aliás, isso parecia ser norma da escola, pois todos os professores homens costumavam fazer o mesmo, as mulheres por sua vez trajavam uma bata azul celeste. Pedrinho era muito exigente, vendia seu peixe caro, suas avaliações orais e escritas eram rigorosas, por isso a turma não o tinha em bom conceito. Anos depois, quando passei a ler sistematicamente livros sobre artes gráficas e a escrita eu pude melhor avaliar o quanto me fora útil os primeiros passos pelos caminhos da caligrafia.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Reporter PB

Reporter PB - Entrevista com o artista plástico Sérgio Lucena.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Marco Feliciano: quem criou este monstro? - Celso Lungaretti


Protestos contra a eleição de Marco Feliciano


O monstro - Feliciano como presidente da CDHM - não existiria se um Dr. Frankenstein, nesse caso o PT, não lhe tivesse dado vida.

O deputado federal Marco Feliciano se diz pastor, mas nem de longe tem o perfil de quem zela por seu rebanho; apenas o tosquia. Nos tempos bíblicos, decerto seria um dos mercadores que Cristo expulsou do templo. Seu deus é o bezerro de ouro.

Um vídeo divulgado na internet  escancara a sua devoção suprema pelo vil metal.

Exorta os extorquidos a doarem R$ 1 mil cada, mas, magnânimo, abre exceção para os mais pobres, impossibilitados de jogarem tanto dinheiro no lixo. Aconselha-os a queimarem R$ 500.

Pede que façam a “oferta” em dinheiro, cheque, cartão, depósito bancário ou, mesmo, moto! Até cheques pré-datados para 90 dias são aceitos. E repreende uma vítima distraída, por ter esquecido um pequeno detalhe:

“Samuel de Souza doou o cartão, mas não doou a senha. Aí não vale. Depois vai pedir o milagre para Deus e Deus não vai dar. E vai falar que Deus é ruim…”

Pelo contrário, Deus é bom até demais. Tanto que ainda não fulminou Feliciano com um raio.

Ele é, ainda, alvo de uma ação penal em função dos R$ 13,3 mil que recebeu adiantados para realizar dois cultos religiosos no Rio Grande do Sul: não compareceu, nem devolveu a grana.

E o Supremo Tribunal Federal abriu inquérito para apurar se são criminosas as afirmações racistas e homofóbicas difundidas por Feliciano nas redes sociais.

Frases como a de que “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé” e a de que “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime, à rejeição”.

Os projetos de Feliciano

Coerentemente, Feliciano é autor de projetos que pretendem revogar decisões do próprio STF, como a que reconhece a união civil de pessoas do mesmo sexo. E defende a castração química dos estupradores.

Mais chocante ainda do que a posse de parlamentar tão inadequado, verdadeiro antípoda, para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, foi a maneira como se consumou tal aberração.

No rateio informal das comissões entre os partidos, o PT fazia questão de obter a CDHM, por ter tudo a ver com sua história e suas bandeiras originais.

Ahora no más! Optou por dela abrir mão, deixando que caísse no colo do Partido Social Cristão. Quis ficar com alguma de mais valia para o exercício da politicalha.

Aquela politicalha em relação à qual o PT se apresentava como alternativa.

Então, como na obra famosa de Mary Shelley, é inteiramente justificada a execração da criatura, mas o criador merece repúdio ainda maior. O monstro –Feliciano como presidente da CDHM– não existiria se um dr. Frankenstein não lhe tivesse dado vida.

E, convenhamos, o paralelo é bem pertinente: o caminho percorrido pelo médico ficcional até se tornar fabricante de monstros é o mesmo que o partido real percorreu até se tornar parceiro e cúmplice da pior escória da política brasileira.


Fonte: site Opinião e Notícia -opiniaoenoticia@personata.com.br

Artigos - A Visão Valenciana do século 21 - Fernando Monteiro



Museu do Amanhã - Rio de Janeiro
 
Foi num dos volumes da Coleção Folha/Grandes arquitetos que vi pela primeira vez o nome do espanhol Santiago Calatrava.

A proposta editorial da publicação da Folha pretendeu reunir “os grandes nomes da arquitetura que mudaram a paisagem urbana do mundo”, e os demais enfocados nas edições seqüenciadas me eram familiares, com a única exceção de Calatrava. Confesso tal desconhecimento sem maiores pudores, uma vez que não sou arquiteto, mas tão somente um admirador das obras desses profissionais que não só "reordenam o espaço", mas eventualmente podem fazer se refletirem nele os caminhos mais amplos da civilização (ao tornarem as suas concepções uma espécie de espelho da cultura em permanente transformação).

Exatamente o tipo de artista – conforme cabe designar – que foi outro espanhol de alta têmpera criativa (Antoni Placid Gaudí i Cornet), um americano de gênio indiscutível (Frank Lloyd Wright), um francês seminal (Charles-Edouard Jeanneret-Gris – Le Corbusier) e um brasileiro como Oscar Niemeyer, aos quais eu via ser ombreado o trabalho do para mim "novo" nome entre os grandes da arquitetura: Santiago Pevsner Calatrava Vall.

Sou um tanto obsessivo com tais lacunas, e programei conhecer a obra de Calatrava – seu “nome de guerra” das formas, digamos assim – se possível in loco pelo menos na Valência onde o espanhol veio ao mundo, em 28 de julho de 1951. E essa tão velha e ao mesmo tempo nova Valência (que, segundo reconhece o próprio arquiteto, ofereceu-lhe uma dos melhores oportunidades para um jovem exercer o seu talento), merece que se diga alguma coisa a seu respeito, como cidade cujas inquietações vão da vigorosa literatura de um Vicente Blasco Ibañez à "visagem verneana do futuro, em termos de arquitetura" hoje instalada numa das extremidades do leito seco rio Túria, com a assinatura que apaixona os valencianos – Santiago Calatrava – do mesmo modo como a de Gaudí veio do novecento espanhol para ainda se constituir em orgulhoso work in progress rumo ao céu da Catalunha, no caso da catedral (ou melhor, atual basílica) da Sagrada Família, ainda em construção em Barcelona.  
        

MEDITERRÂNEA E CHEIA DE SURPRESAS


Valência é a terceira cidade da Espanha, e a capital de uma Comunidade com mais de 800 mil habitantes no município (conforme aqui chamamos) e quase dois milhões na área metropolitana, que inclui inúmeros sítios históricos. É a “cidade do

Cid”, a terra da legenda inicial da Reconquista – e lá está, na sede da Prefeitura, o estandarte imposto aos derrotados mouros e a longa espada (“da justiça”) do rei Jaime I.

Profundamente espanhola, suas tradicionais Fallas (festas de abertura da primavera) remontam a um passado romano pagão na proximidade dos ritos sagrados ligados aos “mistérios” agrícolas, sem falar da marca dos visigodos que levantaram fortes bastiões de entrada – dos quais restam pelo menos dois importantes portais urbanos ainda em uso (as Torres Serranas).

Na história mais recente – e que ainda duele en el alma dos mais velhos –, foi a brava Valência algo como uma espécie de fiel da balança estratégica na Guerra Civil (1936-39) fratricida que dividiu a Espanha do século passado como poucos conflitos num país foram capazes de separar irmãos de raça em duas metades aparentemente inconciliáveis até a longa ditadura do “Generalíssimo” Francisco Franco emular o rato que, na força das imagens populares, termina por parir uma montanha. Ou seja, o sistema monárquico restaurado pelo vencedor fascista da guerra entre republicanos e inimigos da democracia, em acordo político-social que promoveu o casamento do socialismo de um Felipe Gonsález com um rei surpreendente entre as duas, três ou quatro Espanhas que se podem contar desde os Alpes até as portas da África marroquina contemplando a comunidade malagueña de paredes brancas na Algeciras de Paco de Lucia...

Nessa Valência diferente tanto de Málaga e Sevilha quanto de Barcelona e Madri – pois as regiões são um “estado de espírito” na Espanha de Unamuno e Picasso, Dominguín e Ignacio Zuloaga –, foi que nasceu o arquiteto capaz de atender à demanda de “uma obra de absoluta modernidade”, quando da votação sobre o destino a ser dado ao leito do antigo rio que cortava a cidade e que teve de ser mudado de curso, após uma inundação das maiores já sofridas pelos valencianos. Em face da decisão, a administração regional foi em busca de ocupar essa extremidade do Túria com um projeto à altura das águas históricas, desviadas para longe do centro a partir do começo da década de 1960. E, nesse velho centro, no coração de uma urbe de estandartes e espadas, surgiria um quase alucinação arquitetônica – extremamente funcional, entretanto – a qual foi entregue (como não poderia deixar de ser) a um valenciano típico na maneira de ver o mundo. Vale lembrar que, no momento dessa decisão, começava a prosperar uma Espanha bem menos problemática do que a que hoje atravessa talvez a mais séria das crises econômicas que já se abateram sobre a Europa.
 

SURGE A “CIDADE DE CALATRAVA”


Santiago Calatrava formou-se em Arquitetura na sua cidade natal, em 1974, ao mesmo tempo em que frequentava também os cursos de Urbanismo e Belas Artes, destacando-se como um dos raros alunos habilitados a dar as aulas que cumpria ouvir (alguns dos seus professores recordam o desconforto de “ensinar” a um estudante que aparentava já “saber tudo”).  

Concluídos os cursos, o jovem arquiteto mudou-se da Espanha para a Suíça, a fim de estudar engenharia civil em Zurique, licenciando-se em 1979 e concluindo o doutorado em 1981. “Suas provas oficinais se destacavam pelo partido original de projetos até difíceis de definir, devido à complexidade das formas desenvolvidas com base num já sólido conhecimento tecnológico” – recorda o seu professor (e, mais tarde, colaborador) Felix Candela.     

Provavelmente, essa formação integral (estudos de arquitetura, artes e ofícios, e – depois – engenharia), viria a capacitá-lo para uma gama de diversas empreitadas, desde interiores até grandes infraestruturas como a Ponte de Alamillo, em Sevilha, um dos seus primeiros projetos estruturais, concluído em 1992. E quando surgiu o projeto de uma “Cidade das Artes e da Ciências” a se levantar onde antes corriam as águas do rio turbulento, Calatrava seria um dos jovens arquitetos menos propensos a fazer ancorar no leito do Túria um projeto de entretenimento de concepção blasé, com a finalidade de idiotizar crianças e possivelmente alimentar complexos de Peter Pan em adultos infantilizados. Pelo contrário: propôs que seguissem o antigo caminho tranqüilo do rio, isto é, na direção contrária de um passado de turbulências naturais, políticas etc. Concretizada em formas surpreendentes – como surpreendente é a velha “cidade do Cid” –, a criação desse legítimo inovador no campo arquitetônico foi recebida como uma nova corrente de formas associadas inclusive à idéia da Água como bem não renovável, num planeta que precisa decidir sobre questões vitais para a comum sobrevivência na Terra.

Para mim, foi insuficiente deparar-me, na Coleção Folha/Grandes arquitetos, com as imagens impactantes da calatraviana “Ciudad de las Artes y las Ciencias”, roçando os limites da incredulidade, sim: seriam maquetes, ou aquilo de fato existia, numa Valência que me faltava ver, entre os destinos de quase cinco anos de viagens obsessivamente espanholas?...

Foi assim que me dispus, no final de 2011, a ir conferir pessoalmente a “Ciudad” de formas do século 21 aterrissadas com leveza, força e funcionalidade na mesma Espanha arrojada de Gaudí tanto quanto do obscurantismo da “Opus Dei”, infelizmente. E lá estava a obra de ousadia indiscutível, fazendo “virar” a página das inovações arquitetônicas catalãs – já incorporadas à história das artes – e também atingindo, no cerne daquelas formas, uma espécie de medula nova, artisticamente falando, pelo desdobramento da ligação com a natureza (talvez mais à maneira do pensamento de um Teilhard de Chardin do que mesmo pela ligação com as obras do modernismo barcelonês do incontornável Gaudí) à frente da imaginação ibérico-delirante que Santiago Calatrava vem espalhando pelos continentes europeu e americano.

 Hoje, já são mais de 200 trabalhos – entre estações, aeroportos e projetos de ordenação urbanística na Suiça, em Portugal, Itália, Suécia, Grécia, EEUU, Argentina etc – que levam a assinatura desse homem ainda jovem, com atenção extrema ao pormenor material e dotado de visão estrutural poderosa.

Há, nas suas concepções maiores, a predominância de valores cinéticos-dinâmicos que conseguem “dar a volta” a um certo imobilismo quase inevitável em projetos que implicam grandes massas arquitetônicas. Ele é um “estruturista” vocacional, e gosta de conciliar solidez tecnológica com elementos figurativos que fogem de todo formalismo, talvez pela via das conotações organicistas sempre presentes no seu traço de artista.

 Pode parecer estranho trazer a palavra surrealismo para este terreno, porém essa seria uma das chaves de análise do “estilo calatraviano”, que também vai buscar  inspiração nas lições da natureza, patentes no seus equilíbrios de articulações-rótulas, tendões-cabos e outras harmonias antropomórficas aludidas em construções que não nos desconcertam (como a pirâmide transparente plantada na frente do Louvre).

Essa harmonia é, em parte, agenciada pelo movimento que anima suas formas no mais das vezes assimétricas – embora sempre a partir de configurações dinâmicas que atingem, com naturalidade, aquele ponto perfeitamente escultural, tão desejável em arquitetura. Ou seja, aquilo que muitas vezes se torna o esforço de uma vida inteira, no caso de profissionais menos dotados para o desenho, em Santiago Calatrava parece ser um instinto seguro para compreender o tipo de torre capaz de surpreender – agradavelmente – a Barcelona que viu se erguer a forma quase hipnótica da Torre de Montjuïc como uma nova “marca” da capital da Catalunha, visível de quase todos os seus muitos mirantes.

O arquiteto valenciano era, pois, o homem também naturalmente destinado a criar a obra-prima de arquitetura que hoje dá movimento à antiga paisagem do rio da sua infância – nunca o das “mesmas águas”, segundo o conceito heracliteano (que tem tudo a ver com a dinâmica permanente das formas que Calatrava introduziu nesse ambiente para sempre modificado).

CIDADE PARA O FUTURO

A Cidade das Artes e das Ciências é um grande complexo lúdico-cultural que já se converteu em referência internacional, tanto pela ousada arquitetura de Calatrava – coadjuvado pelo arquiteto Félix Candela – quanto pela proposta do que ali se chama “ócio cultural e inteligente”, no lugar do verbo divertir (ou seja, espaços que pretendem ser meramente diversionais, na apresentação de conteúdos especiais de enseñanza).

Tal sensação se instala a partir da ponte de acesso ao extraordinário conjunto levantado em torno do protagonismo do elemento água na vida deste planeta. Popularmente chamada “ponte de Calatrava”, ela tem um perfil extremamente harmonioso como passarela e via de acesso ao conjunto arquitetônico (e à estação de metrô que leva diretamente para a nova “cidade”). Foi construída com aço de alta resistência, descansando sobre uma viga ligeiramente arqueada, cujo arco inclinado de 14 metros de altura se alonga por 26 metros de largura (e 131 de extensão total), isso tudo inclinado setenta graus sobre o plano horizontal. Seu efeito prepara, perfeitamente, para o Umbral que Calatrava chama de “elemento vertebrador de la Ciudad”, uma espécie de zona verde que dá vistas para todo o complexo – sendo, desde já, um dos parques ajardinados mais belos do mundo.

Dali, o visitante pode se dirigir para o Palácio das Artes Rainha Sofia, um novo teatro de ópera com quatro amplas salas acolhidas sob uma espécie de elmo gigantesco, suspenso sobre a estrutura interna de vidro. Desse edifício arrojado, o passo seguinte é encontrar um dos volumes mais bem concebidos do projeto total: o Hemisférico, espaço para cinema em grande formato, 3D e projeções digitais, que representa o olho humano – ou, mais precisamente, o “olho da sabedoria” – através da forma que se completa pela sua própria imagem num espelho d’água de proporções gigantescas.

Mais adiante, o Museu de Ciências Príncipe Felipe lembra o gigantesco casco de algum animal antediluviano, ocupando uma área de 40.000 m2 na qual Calatrava concebeu módulos interiores “essencialmente interativos”, de modo a estimular os visitantes a interagirem com as exposições, oficinas e outras atividades que se desenvolvem nos museus hoje dinâmicos. 

O maior de todos os subconjuntos teria que ser, necessariamente, o Espaço Oceanográfico, constituído por 10 edifícios espalhados ao longo de 100 mil metros quadrados de superfície. Com o objetivo de educar para a conservação do mundo marinho, o visitante vai encontrar nessa área não menos que 11 pavilhões (de dois níveis) situados em torno de um grande lago central e mais sete aquários. Tudo isso ligado por passarelas, passeios e rampas no nível interior. Dentre as formas do espaço, destacam-se das torres “calatravianas” típicas, que lembram conchas abertas como carapaças, com a finalidade algumas das mais raras dentre as 500 espécies marinhas presentes nesse que é, desde já, o maior centro marinho da Europa. Animais como morsas, delfins, leões marinhos, pinguins, tartarugas, tubarões e belugas estão “em habitat” – e cada espécie relacionada com os ecossistemas (tropical, ártico, antártico) atualmente em estudo no parque que recebe água do mar diretamente da bela praia valenciana de Malvarrosa. 

NO BRASIL


Aqui no Brasil, Santiago Calatrava terá a sua primeira obra erguida no Píer Mauá, na área do Porto Maravilha. Com previsão de inauguração para o segundo semestre deste ano, trata-se do Museu do Amanhã, que faz parte dos projetos museológicos da Fundação Roberto Marinho, e se constitui num complexo de 12,5 mil metros quadrados, orçado em R$ 130 milhões e para o qual o arquiteto espanhol da “Ciudad” do amanhã foi uma escolha natural, segundo os diretores da Fundação carioca.

Entrevistado quando da apresentação dos esboços, no ano passado, Calatrava disse que o visitante do museu “não vai apenas apreciar um espaço museológico. Ele também vai ter a experiência da luz, da vida, da natureza, e poderá contemplar, entre outras paisagens, o Dedo de Deus”.

Esse dedo passa pelas formas naturais aprendidas da Natureza, segundo o espanhol eleito, em 2005, pela revista americana Time, como “uma das cem pessoas mais influentes do planeta”. Tanto que o MA adotará o uso da energia solar e está sendo construído com materiais recicláveis, de acordo com as especificações do arquiteto que diz ter se inspirado inicialmente na bromélia, para os estudos prévios de concepção da forma desse museu de denominação um tanto vaga, convenhamos. 

“Se o lugar não é bonito (a praça na zona do porto da “cidade maravilhosa”) – acrescenta Calatrava, com mais franqueza – é preciso fazer coisas belas; por que não 'bromeliáceas' ou formas angulosas que vão se arredondando, em metamorfoses? São coisas que eu associo a este país, embora as formas sempre se abstraiam, porque a arquitetura termina por propor algo quase sempre autônomo, no resultado final”.

Foi desse mesmo modo, afinal, que ele concebeu uma cidade nova dentro do espaço aberto num velho rio valenciano – e, assim, um “Museu do Amanhã” brasileiro não deve ter constituído nenhum especial desafio para o arquiteto espanhol com a cabeça no século 21.